Ser criança é não perceber, muitas vezes, grandes muralhas que são construídas entre nós. É não saber quanto tempo o tempo tem, ele só passa, passa e leva com ele momentos não vividos. Mas do nada a gente começa a perceber: percebemos o que é saudade, percebemos que temos que ter responsabilidades, como ter que guardar as moedas que ganhamos de mesada para podermos comprar a nova edição do Gibi na banca do Francisco, por exemplo.
Semana passada eu ouvia a conversa dos meus pais, eles falavam sobre como o emprego do papai tem o prendido, antes sempre tínhamos o sábado com a família, mas hoje em dia o sábado é o dia de planejar a próxima meta da empresa. E essa conversa trouxe até alguns desentendimentos, isso foi mais um coisa que percebi com o tempo: os pais brigam e não percebem que isso nos afeta. É a mesma sensação de ouvir dizer que a fada do dente não existe.
Apesar de o papai perceber que esse trabalho não o faz feliz, ele continua lá. Eu realmente não entendo, é como a tia Carmen sempre cita um cara muito famoso: ter dinheiro é um contentamento descontente, não sei… Algo desse tipo.
Hoje o papai me trouxe um presente, foi um pássaro muito lindo. Ele é todo azulado, papai disse a raça, mas eu não lembro agora. No primeiro dia, ele não cantou. Três dias depois, ele não cantou. Uma semana depois e ele ainda não tinha cantado, e isso só aumentava minha ansiedade, eu queria tanto ouvi-lo. Perguntei ao papai se ele tinha algum problema, passei a tarde toda deitada no chão, e nada. E esse “nada” me deu um sono danado, tanto que dormi ali mesmo, não só dormi como também sonhei.
Sonhei que estava em um belo jardim deitada sobre as flores, e por cima voavam vários pássaros, aquilo era a coisa mais linda que eu tinha visto, parecia uma dança coreografada –Fiquei aqui pensando que a minha professora de balé deve ter aprendido com eles – Ao longe avistei um passarinho azulado dentro de uma gaiola, mas a porta estava aberta, e naquele momento ele poderia sair dali e juntasse com os outros pássaros que sobrevoavam as flores. Eu não conseguia entender o porquê dele continuar ali, por isso me aproximei e questionei-o:
– Passarinho, por que você não voa com os outros. – Ele só cantava. Claro, muito me surpreenderia se o pássaro falasse. Mas eu insistia.
– Vamos, saia. Seja livre como os outros. Voe, voe!
E ele continuava lá.
Então eu acordei do nada. Tente voltar a dormir para poder voltar ao jardim, mas não consegui. Papai me vendo ali deitada se aproximou de mim, e eu finalmente percebi.
-Papai, está na hora de dá tchau ao pássaro azulado.
-Como assim, Joaquina?
– Ao contrário de você, ele não pode ser feliz porque está preso. Mas sua gaiola está aberta, papai.
E foi assim que eu tive por um breve tempo um passarinho azulado, agora ele deve estar por aí sobrevoando flores.
Beijos e abraços, Joaquina.
Há duas meninas que moram perto da minha casa, elas são novatas no bairro. Seus pais tiveram que se mudar para a minha cidade por conta do emprego. Eu não as conheço bem, na verdade só falei com elas uma vez quando levava meu coelho, Bartolomeu, para passear na grama da praça. E o mais legal de tudo é que elas são gêmeas, daquele tipo que se parecem iguais, sabe?
Essa semana  a mãe delas esteve aqui em casa, ela veio trazer o convite do aniversário delas. Isso é legal e estranho ao mesmo tempo, porque, geralmente, só convidamos os amigos que mais gostamos para nossa festa. Mas isso é um sinal de que elas gostaram de mim e querem fazer amizade. Eu acho isso ótimo! Mamãe perguntou-me se eu tenho o desejo de ir, eu disse que sim, pois elas pareciam legais. Saímos para comprar o presente. Fomos à loja de brinquedos do shopping aqui perto de casa que, geralmente, eu costumo comprar os meus presentes em meus aniversários e no dia das crianças. E também sei que no Natal a mamãe compra nessa loja, porque essa é a loja mais “brinquetuda” de todas as lojas de brinquedos.Eu tinha uma missão impossível: comprar dois presentes para duas meninas que quase não falo e não posso escolher nenhum presente para mim.
Depois de rodar toda a loja e fazer o vendedor tirar da caixa quase todos os brinquedos possíveis de serem testados na hora  – Desculpa moço da loja – eu escolhi duas bonecas lindas da mesma coleção, assim elas poderiam completar a coleção mais rápido. Minha mãe pediu para que fossem embaladas com papel de presente igual e lógico que eu não deixei. Que mania das pessoas de acharem que tudo deve ser igual.
E finalmente chegou o dia da festa, fomos só mamãe e eu. O papai sempre tenta evitar o máximo que pode quando há festa de crianças. Ele diz que eu já sou uma festa ambulante. E eu sinceramente não sei se fico com raiva ou recebo como elogio, afinal, uma pessoa que parece uma festa ambulante deve ser muito feliz.
Ao chegarmos, as meninas nos receberam.
– Oi, bem vindas a nossa festa –  Disseram juntas de uma só vez – Eu sou a Sara e essa é a Sofia. Uma delas tomou a frente.
Eu não conseguia disfarçar minha cara de “ué”. Eu realmente não esperava ver aquelas duas meninas usando vestidos de bolinhas: um branco com bolinhas vermelhas, outro vermelho com bolinhas brancas. Eu tinha vários problemas nesse momento: primeiro, não posso rir por essas meninas estarem parecendo enfeites de árvore de Natal; segundo, não posso acreditar que elas realmente querem ser iguais; terceiro, tenho que mudar minha expressão e dar logo um sorriso antes que elas me acham uma irritadinha do nariz empinado.
– Oi, meu nome é Joaquina. Obrigada pelo convite. Esse é seu, Sara – Entreguei para a menina do vestido branco com bolinha vermelha – Esse é seu, Sofia  – Entreguei para a menina do vestido vermelho com bolinha branca.
– Como está seu coelhinho? Como é mesmo o nome dele? – As duas falaram se completando. E eu não consegui disfarçar minha cara de “ué?”.
– Bartolomeu –  Respondi –  Vocês sempre falam assim? – Um dia ainda vão costurar minha boca. Cala boca, Joaquina!
– Joaquina! Mamãe falou segurando em meu braço. Com um olhar de repreensão
-Assim, como? – Falou a Sara.
– Vocês sabem que não precisam ser iguais, certo? É tipo, esse vestido. O vestido da sara é branco e o da Sofia é vermelho, e mesmo que o branco tenha bolinhas vermelhas, ele nunca vai ser vermelho. Assim como o vermelho têm bolinhas brancas, ele nunca vai ser branco. Assim são vocês, mesmo que a Sara tenha um pouco de Sofia dentro dela, ela nunca vai ser Sofia. E isso é o encantador de tudo isso. Já imaginou se todo mundo pensasse igual? Eu posso presumir – Gostaram dessa palavra? Mais um do dicionário da tia Carmem. Quer dizer que eu fiz uma conclusão – que isso seria, no mínimo, estranho. E eu posso ver isso nos olhares de vocês. A sara é dedicada, gosta de ser líder no grupo, mas tem medo da reprovação das pessoas. Já a Sofia é muito meiga, sonhadora e altruísta, mas tem medo de arriscar, por isso sempre fica na sombra da irmã. Vocês não são gêmeas no olhar. E talvez isso não pareça conversa de uma criança, mas somos nós quem mais podemos sentir tudo isso.
– Tá, vamos brincar agora. Tchau, Joaquina. – Elas falaram juntinhas. Como se já tivessem decorado essa fala. E como se não tivessem entendido nada do que eu tinha dito.
Dei tchau, e fiquei observando elas correndo até a caixa de presentes e joga-los lá. Depois correram para um grupo de meninas e ficaram exibindo os sapatos que combinavam com os vestidos. E eu espero realmente que elas entendam que as pessoas não precisam sempre ser iguais, e muitos menos ser aquilo que as pessoas querem que elas sejam. Eu mesmo já não serei mais eu daqui alguns dias, horas,segundos…eu já entendi que o bonito da vida é estar sempre se transformando. E eu gostarei do meu novo eu.
Beijos e abraços, Joaquina
Hoje na aula a professora disse que ao chegar em casa deveríamos escolher nossa história preferida e que leríamos na próxima aula na frente da turma – não que isso fosse um problema, eu até gosto de ficar falando na frente dos outros – A questão é qual livro escolher? Pensei em contar sobre a Cinderela, mas seria injusto deixar a Branca de neve de lado. O que os sete anões diriam de mim? Peter Pan, provavelmente, nunca me perdoaria de não falar um pouquinho sobre ele. E não passaria na minha janela para me levar à terra do nunca. Não posso arrisca! Eu pensei nisso todo o caminho da escola até chegar em minha casa. Mamãe até perguntou o que tinha acontecido para eu estar quietinha. E essa pergunta me deixou um pouco frustrada. Por que os adultos acreditam que devemos ser sempre iguais? Eu não posso ser agitada-calma-comelona-fastigiosa-delicada-brava tudo isso ao mesmo tempo e quando eu quiser? A única coisa que devemos ser o tempo todo é sermos gentil. Papai sempre diz que devemos ser gentil e ter coragem. Eu respondi que não era nada.
Ao chegar em casa fui tomar banho e me preparar para o jantar. Vocês acreditam que nem ficar embaixo do chuveiro ligado ajudou a encontrar uma solução? Quando fui ao meu quarto, sentei em minha cama e fiquei olhando para minha estante. E lá no cantinho, quase dizendo “encontrei um lugar para chamar de meu”, encontrei um livro que eu lia bastante quando o ganhei no ano em que aprendi a ler. Ele contava a história de uma vovó das bochechas rosadas que fez uma enorme colcha de retalhos para seu netinho, e toda vez que ele a via forrada em sua cama, ele se lembrava da vovó e chorava. Pronto! É essa história que vou contar, pois todo mundo gosta de histórias com vovó da bochecha rosada. E ninguém ficaria chateado. Nem a Cinderela, nem a Branca de Neve e os Sete Anões e nem o Peter Pan. Porque todo mundo sabe que devemos dar preferência aos mais velhos, não é mesmo? Depois desse alívio eu corri para o jantar, e depois disso eu preciso dizer que mamãe me mandou fazer a tarefa e ir dormir?
Oi, voltei para terminar nossa conversa. Então, hoje as coisas aconteceram de uma forma bem diferente, pela manhã estava tudo normal: meu pai e minha mãe na correria enquanto eu tomo café da manhã, assisto desenho e me preparo para a escola.
Hoje a turma estava bastante eufórica – gostaram dessa palavra? Eu aprendi com a tia Carmem. Quer dizer que estavam todos agitados – Sentamos em círculo e a professora perguntou quem seria a primeira pessoa  a se apresentar, eu logo levantei a mão, mas também fui a única. Eles são todos bobos, não entendem que as pessoas cansam rapidamente das coisas e não prestam atenção em quem fica por último.
Eu fui para o meio do círculo, abri meu livro e comecei a contar a história. Não se ouvia outras coisas além da minha voz, não se olhava para outras pessoas a não ser a eu. Todos estava gostando da minha história, até que o inesperado aconteceu: começou por um lado, depois pelo outro lado e, finalmente, pelos dois ao mesmo tempo. As lágrimas não paravam de escorrer dos meus olhos. Ninguém entendia nada e, no momento, eu menos ainda. Eu só chorava e soluçava. Ligaram para a mamãe, pois não sabiam o que fazer para que eu parasse. Quando ela chegou, eu já tinha diminuído o choro, mas ainda soluçava. A mamãe me fez beber água e perguntou o que estava acontecendo. Agora eu entendo, mamãe. Agora eu entendo! – Respondi abraçando-a – E ela sem entender nada me perguntou o que eu finalmente entendia. E eu continue falando em meios aos soluços e o restante das lágrimas que ainda corriam. Eu entendo porque o netinho sempre chorava quando via a colcha da vozinha dele. Era saudade, mamãe. Essa coisa que dói aqui dentro e não sabemos explicar. Isso que nos faz ficar felizes por lembrar e tristes por estar longe. Isso que agora eu sinto, eu agora entendo, mamãe!
E foi assim que eu faltei aula no dia seguinte e fui parar na casa da vovó.
Beijos e abraços, Joaquina.
Hoje eu parei para observar o céu e as nuvens. Na verdade eu não parei, quando me dei conta, já estava observando. Eu chamo isso de “efeito lagartixa” – sabe quando você está pensando em uma coisa e fica parado olhando para cima sem se mexer? – E eu pensei como seria legal se eu fosse uma nuvem. Elas voam para aonde querem e podem ser o que quiserem. Aquela mesmo ali parece um dinossauro, e aquela outra um cavalo. Mas de repente elas já são outras coisas. Às vezes me pergunto se elas realmente mudam ou meus olhos que veem essas coisas diferentes a cada piscada. E continuei olhando para o céu e pensando como também seria legal ser o sol. Ter todos os planetas girando em torno de mim e ainda poder levar meu calor para todos os lugares do sistema solar, Nossa! Eu me amostraria muito brilhando bem forte.
Finalmente, o “efeito lagartixa” passou, as nuvens se foram e o sol deu lugar a lua. E então eu pensei: como seria legal ser a lua. Em meio a escuridão ser um pingo de luz que ilumina a noite e deixa os casais mais apaixonados – já pensou em todos os poemas que poderiam escrever inspirados em mim? Uaau! – Como seria bom ser lua! Mas eu não pude observa-la por muito tempo, pois a lua faz as crianças sentirem um sono sem fim, é só ela aparecer que eu já quero dormir. E também a mamãe fica dizendo: Joaquina, já é hora de criança está dormindo. Coloquei meu pijama, escovei os meus dentes, fui para minha cama e esperei a mamãe vir se despedir com aquele beijo especial de boa noite – sim, ainda hoje existem pais que fazem isso, todos deveriam tentar – e, lá na cama, eu pensei que eu já tinha pensando muito e não conseguia parar de pensar. É normal pensar tanto assim? E antes de fechar os meus olhos eu percebi que não era tão legal ser nuvem, nem sol, nem lua. O bom mesmo era ser eu que posso observar e sentir tudo isso.
Beijos e abraços, Joaquina.
Em uma tarde de quinta feira…não, apaga. Em uma manhã ensolarada…não, apaga. Em uma manhã de sábado. Pronto, “manhã de sábado” sempre causa um efeito melhor nos textos. Como eu dizia, em uma manhã de sábado o dia começou não tão diferente quanto os outros; o sol ainda estava lá e a rua continuava animada com os vizinhos fazendo coisas que só se faz em uma manhã de sábado. Mas alguma coisa estava diferente. Um mistério estava no ar, e eu sabia que eu tinha que desvendá-lo. Levantei da cama e fui logo à cozinha saborear as deliciosas panquecas de sábado que meu pai fazia. Não, apaga, quem hoje em dia tem pais que preparam panquecas em uma manhã de sábado? Ao menos nenhum dos meu colegas. Vamos escrever isso direito, Joaquina. Logo levantei da cama e fui à cozinha colocar dois miojos para preparar. Pronto, isso parece uma manhã de sábado. Subi para o meu quarto para arrumar minha cama e de repente, pela janela do quarto, vi algo branco correndo pelo jardim do quintal. Eu sabia! –  logo pensei – sabia que tinha alguma coisa estranha no ar. Corri desesperadamente pela escada e quase levo um tombo, não que essa seria a primeira vez, mas levar um tombo na escada não era o meu plano para uma manhã de sábado, entende? continuei correndo até a porta da cozinha que dava saída direta para o quintal. Andei de um lado para o outro, revirando tudo. Tudo parecia tão normal que eu sabia que tinha alguma coisa estranha. Na porta estavam a mamãe e o papai com um sorriso no rosto, quase como se estivessem zombando de mim. Como se eles soubessem o que estou procurando. E eu logo cansei, sentei no balanço e fiquei somente com a pulga atrás da orelha. E não é que o que eu procurava surgiu do nada em meio aos pés de alface que mamãe plantara. Branco como a neve, olhos azuis como o céu e um focinho que não parava de se mexer: era um coelho. Surpresa! – gritaram mamãe e o papai – e dei um sorriso pra disfarçar minha decepção por aquele coelho ser somente mais um coelho. Ele não tinha um relógio e muito menos me levaria para o país das maravilhas. FIM! Não, apaga. Quem é que termina uma história com fim? Ao menos ninguém que eu conheça. E depois dessa manhã de sábado eu aprendi algumas coisas: primeiro, “manhã de sábado” realmente deixa o texto legal. Segundo, quando você cresce para matar sua fome são necessários dois miojos. E terceiro, quando criamos muitas expectativas podemos nos decepcionar com a realidade, mas não morremos com as decepções. Na verdade aprendemos algumas coisas.
Beijos e abraços, Joaquina.