Há duas meninas que moram perto da minha
casa, elas são novatas no bairro. Seus pais tiveram que se mudar para a
minha cidade por conta do emprego. Eu não as conheço bem, na verdade só
falei com elas uma vez quando levava meu coelho, Bartolomeu, para
passear na grama da praça. E o mais legal de tudo é que elas são gêmeas,
daquele tipo que se parecem iguais, sabe?
Essa semana a mãe delas esteve aqui em
casa, ela veio trazer o convite do aniversário delas. Isso é legal e
estranho ao mesmo tempo, porque, geralmente, só convidamos os amigos que
mais gostamos para nossa festa. Mas isso é um sinal de que elas
gostaram de mim e querem fazer amizade. Eu acho isso ótimo! Mamãe
perguntou-me se eu tenho o desejo de ir, eu disse que sim, pois elas
pareciam legais. Saímos para comprar o presente. Fomos à loja de
brinquedos do shopping aqui perto de casa que, geralmente, eu costumo
comprar os meus presentes em meus aniversários e no dia das crianças. E
também sei que no Natal a mamãe compra nessa loja, porque essa é a loja
mais “brinquetuda” de todas as lojas de brinquedos.Eu tinha uma missão
impossível: comprar dois presentes para duas meninas que quase não falo e
não posso escolher nenhum presente para mim.
Depois de rodar toda a loja e fazer o
vendedor tirar da caixa quase todos os brinquedos possíveis de serem
testados na hora – Desculpa moço da loja – eu escolhi duas bonecas
lindas da mesma coleção, assim elas poderiam completar a coleção mais
rápido. Minha mãe pediu para que fossem embaladas com papel de presente
igual e lógico que eu não deixei. Que mania das pessoas de acharem que
tudo deve ser igual.
E finalmente chegou o dia da festa,
fomos só mamãe e eu. O papai sempre tenta evitar o máximo que pode
quando há festa de crianças. Ele diz que eu já sou uma festa ambulante. E
eu sinceramente não sei se fico com raiva ou recebo como elogio,
afinal, uma pessoa que parece uma festa ambulante deve ser muito feliz.
Ao chegarmos, as meninas nos receberam.
– Oi, bem vindas a nossa festa – Disseram juntas de uma só vez – Eu sou a Sara e essa é a Sofia. Uma delas tomou a frente.
Eu não conseguia disfarçar minha cara de
“ué”. Eu realmente não esperava ver aquelas duas meninas usando
vestidos de bolinhas: um branco com bolinhas vermelhas, outro vermelho
com bolinhas brancas. Eu tinha vários problemas nesse momento: primeiro,
não posso rir por essas meninas estarem parecendo enfeites de árvore de
Natal; segundo, não posso acreditar que elas realmente querem ser
iguais; terceiro, tenho que mudar minha expressão e dar logo um sorriso
antes que elas me acham uma irritadinha do nariz empinado.
– Oi, meu nome é Joaquina. Obrigada pelo
convite. Esse é seu, Sara – Entreguei para a menina do vestido branco
com bolinha vermelha – Esse é seu, Sofia – Entreguei para a menina do
vestido vermelho com bolinha branca.
– Como está seu coelhinho? Como é mesmo o
nome dele? – As duas falaram se completando. E eu não consegui
disfarçar minha cara de “ué?”.
– Bartolomeu – Respondi – Vocês sempre falam assim? – Um dia ainda vão costurar minha boca. Cala boca, Joaquina!
– Joaquina! Mamãe falou segurando em meu braço. Com um olhar de repreensão
-Assim, como? – Falou a Sara.
– Vocês sabem que não precisam ser
iguais, certo? É tipo, esse vestido. O vestido da sara é branco e o da
Sofia é vermelho, e mesmo que o branco tenha bolinhas vermelhas, ele
nunca vai ser vermelho. Assim como o vermelho têm bolinhas brancas, ele
nunca vai ser branco. Assim são vocês, mesmo que a Sara tenha um pouco
de Sofia dentro dela, ela nunca vai ser Sofia. E isso é o encantador de
tudo isso. Já imaginou se todo mundo pensasse igual? Eu posso presumir –
Gostaram dessa palavra? Mais um do dicionário da tia Carmem. Quer dizer
que eu fiz uma conclusão – que isso seria, no mínimo, estranho. E eu
posso ver isso nos olhares de vocês. A sara é dedicada, gosta de ser
líder no grupo, mas tem medo da reprovação das pessoas. Já a Sofia é
muito meiga, sonhadora e altruísta, mas tem medo de arriscar, por isso
sempre fica na sombra da irmã. Vocês não são gêmeas no olhar. E talvez
isso não pareça conversa de uma criança, mas somos nós quem mais podemos
sentir tudo isso.
– Tá, vamos brincar agora. Tchau,
Joaquina. – Elas falaram juntinhas. Como se já tivessem decorado essa
fala. E como se não tivessem entendido nada do que eu tinha dito.
Dei tchau, e fiquei observando elas
correndo até a caixa de presentes e joga-los lá. Depois correram para um
grupo de meninas e ficaram exibindo os sapatos que combinavam com os
vestidos. E eu espero realmente que elas entendam que as pessoas não
precisam sempre ser iguais, e muitos menos ser aquilo que as pessoas
querem que elas sejam. Eu mesmo já não serei mais eu daqui alguns dias,
horas,segundos…eu já entendi que o bonito da vida é estar sempre se
transformando. E eu gostarei do meu novo eu.
Beijos e abraços, Joaquina


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