Hoje na aula a professora disse que ao
chegar em casa deveríamos escolher nossa história preferida e que
leríamos na próxima aula na frente da turma – não que isso fosse um
problema, eu até gosto de ficar falando na frente dos outros – A questão
é qual livro escolher? Pensei em contar sobre a Cinderela, mas seria
injusto deixar a Branca de neve de lado. O que os sete anões diriam de
mim? Peter Pan, provavelmente, nunca me perdoaria de não falar um
pouquinho sobre ele. E não passaria na minha janela para me levar à
terra do nunca. Não posso arrisca! Eu pensei nisso todo o caminho da
escola até chegar em minha casa. Mamãe até perguntou o que tinha
acontecido para eu estar quietinha. E essa pergunta me deixou um pouco
frustrada. Por que os adultos acreditam que devemos ser sempre iguais?
Eu não posso ser agitada-calma-comelona-fastigiosa-delicada-brava tudo
isso ao mesmo tempo e quando eu quiser? A única coisa que devemos ser o
tempo todo é sermos gentil. Papai sempre diz que devemos ser gentil e
ter coragem. Eu respondi que não era nada.
Ao chegar em casa fui tomar banho e me
preparar para o jantar. Vocês acreditam que nem ficar embaixo do
chuveiro ligado ajudou a encontrar uma solução? Quando fui ao meu
quarto, sentei em minha cama e fiquei olhando para minha estante. E lá
no cantinho, quase dizendo “encontrei um lugar para chamar de meu”,
encontrei um livro que eu lia bastante quando o ganhei no ano em que
aprendi a ler. Ele contava a história de uma vovó das bochechas rosadas
que fez uma enorme colcha de retalhos para seu netinho, e toda vez que
ele a via forrada em sua cama, ele se lembrava da vovó e chorava.
Pronto! É essa história que vou contar, pois todo mundo gosta de
histórias com vovó da bochecha rosada. E ninguém ficaria chateado. Nem a
Cinderela, nem a Branca de Neve e os Sete Anões e nem o Peter Pan.
Porque todo mundo sabe que devemos dar preferência aos mais velhos, não é
mesmo? Depois desse alívio eu corri para o jantar, e depois disso eu
preciso dizer que mamãe me mandou fazer a tarefa e ir dormir?
…
Oi, voltei para terminar nossa conversa.
Então, hoje as coisas aconteceram de uma forma bem diferente, pela
manhã estava tudo normal: meu pai e minha mãe na correria enquanto eu
tomo café da manhã, assisto desenho e me preparo para a escola.
…
Hoje a turma estava bastante eufórica –
gostaram dessa palavra? Eu aprendi com a tia Carmem. Quer dizer que
estavam todos agitados – Sentamos em círculo e a professora perguntou
quem seria a primeira pessoa a se apresentar, eu logo levantei a mão,
mas também fui a única. Eles são todos bobos, não entendem que as
pessoas cansam rapidamente das coisas e não prestam atenção em quem fica
por último.
Eu fui para o meio do círculo, abri meu
livro e comecei a contar a história. Não se ouvia outras coisas além da
minha voz, não se olhava para outras pessoas a não ser a eu. Todos
estava gostando da minha história, até que o inesperado aconteceu:
começou por um lado, depois pelo outro lado e, finalmente, pelos dois ao
mesmo tempo. As lágrimas não paravam de escorrer dos meus olhos.
Ninguém entendia nada e, no momento, eu menos ainda. Eu só chorava e
soluçava. Ligaram para a mamãe, pois não sabiam o que fazer para que eu
parasse. Quando ela chegou, eu já tinha diminuído o choro, mas ainda
soluçava. A mamãe me fez beber água e perguntou o que estava
acontecendo. Agora eu entendo, mamãe. Agora eu entendo! – Respondi
abraçando-a – E ela sem entender nada me perguntou o que eu finalmente
entendia. E eu continue falando em meios aos soluços e o restante das
lágrimas que ainda corriam. Eu entendo porque o netinho sempre chorava
quando via a colcha da vozinha dele. Era saudade, mamãe. Essa coisa que
dói aqui dentro e não sabemos explicar. Isso que nos faz ficar felizes
por lembrar e tristes por estar longe. Isso que agora eu sinto, eu agora
entendo, mamãe!
E foi assim que eu faltei aula no dia seguinte e fui parar na casa da vovó.
Beijos e abraços, Joaquina.


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